Algometria, alodinia e limiar de dor: como interpretar testes sensoriais na clínica
Veja como usar algometria, limiar de dor e sinais de alodinia para refinar a avaliação de sensibilidade e acompanhar evolução.
Testes sensoriais quantitativos ajudam a transformar uma impressão clínica em dado acompanhável. Eles não substituem raciocínio clínico, mas podem melhorar sua precisão, sua comunicação com o paciente e sua capacidade de dosar intervenções. Quando o objetivo é entender modulação, esses achados conversam com teoria das comportas, CPM e somação temporal.
A algometria de pressão é um exemplo prático. Com ela, você estima o limiar de dor à pressão e, em alguns protocolos, tolerância à dor. Isso permite comparar locais, acompanhar resposta imediata e monitorar mudanças ao longo do tratamento.
Em resumo
Limiar de dor é o ponto em que o estímulo começa a ser percebido como doloroso.
Tolerância é até onde o paciente suporta aquele estímulo.
Alodinia é dor provocada por estímulo que normalmente não deveria doer.
Algometria é complementar, não desfecho único.
O mais útil costuma ser comparar o paciente com ele mesmo ao longo do tempo.
Como usar a algometria
Escolha o local da dor, uma região contralateral e uma região distante. Isso ajuda a distinguir hipersensibilidade local de um padrão mais difuso.
Se um paciente com dor no trapézio apresenta limiar baixo apenas no trapézio doloroso, a hipótese pode ser mais local/regional. Se apresenta limiares reduzidos em regiões distantes, você pode considerar maior participação de sensibilização central ou hipersensibilidade generalizada.
O protocolo precisa ser consistente:
Ponteira perpendicular ao tecido.
Evitar proeminências ósseas.
Aplicar pressão de forma progressiva.
Repetir medidas com intervalo.
Registrar valores e contexto.
Comparar pré e pós intervenção quando fizer sentido.
O que a melhora do limiar pode indicar
Se antes da intervenção o paciente começava a sentir dor com 4 kg de pressão e depois começa com 5,8 kg, ele ficou menos sensível naquele teste. Isso pode reforçar que a intervenção teve efeito hipoalgésico imediato.
Isso ajuda em três níveis:
Mostra efeito ao paciente.
Fortalece adesão.
Ajuda você a escolher dose e estratégia.
Mas cuidado: menor sensibilidade à pressão não significa automaticamente menos dor no movimento. O paciente quer voltar a se mover, trabalhar, dormir e viver melhor. A algometria é um dado, não a história inteira.
Alodinia: quando o estímulo inócuo passa a doer
Alodinia ocorre quando um estímulo que não deveria produzir dor passa a ser doloroso. Pode ser toque leve, pressão baixa, vento frio ou contato da roupa.
Na prática, alodinia sugere que existe hipersensibilidade relevante. Isso pode aparecer em quadros neuropáticos, nociplásticos e em contextos de sensibilização central.
O cuidado clínico é não usar alodinia apenas como "achado". Ela precisa ser traduzida em educação.
Exemplo de explicação:
"Esse teste sugere que seu sistema está percebendo estímulos leves como ameaçadores. Isso não quer dizer que seu tecido está sendo lesionado com esse toque. Quer dizer que a sensibilidade está aumentada e precisamos recalibrar isso gradualmente."
Dosagem de exercício pela resposta sensorial
Um uso interessante da algometria é discutir dose. Essa discussão fica ainda mais útil quando conectada à rede de saliência e ao exercício terapêutico.
Se após exercício o limiar aumenta, a dose provavelmente foi bem tolerada.
Se não muda, pode ter sido subdose ou pouco estímulo para aquele objetivo.
Se o limiar piora e o paciente fica mais irritável, talvez volume ou intensidade estejam acima do momento clínico.
Isso não substitui percepção de esforço, dor durante movimento, resposta 24-48 horas e função. Mas acrescenta um dado útil dentro de uma avaliação estruturada da dor crônica.
Erros comuns
Usar algometria como único marcador de evolução.
Comparar o paciente a valores normativos genéricos sem contexto.
Desconsiderar sono, medo, ansiedade e expectativa.
Aplicar pressão em locais inadequados.
Interpretar alodinia como sinal direto de dano.
FAQ
Todo fisioterapeuta precisa de algômetro?
Não. Ele é útil, mas não obrigatório. O mais importante é saber o que você quer medir e como o dado mudará sua decisão.
Alodinia significa lesão grave?
Não necessariamente. Ela indica que estímulos leves estão sendo percebidos como dolorosos.
Posso usar algometria para convencer o paciente?
Use para educar e acompanhar, não para vencer debate. O dado deve fortalecer compreensão, não invalidar o relato.
Próximo passo
Para integrar testes sensoriais ao raciocínio por mecanismo, conheça o Radar da Dor.
Referências: IASP terminology; literatura sobre quantitative sensory testing; conteúdo do curso Neurociência da Dor: Da Teoria à Prática Clínica, módulo 04.